O céu de Manaus amanheceu cinza em outubro. Não era chuva: era a fumaça das queimadas no Amazonas.
Os focos de fogo no estado mais que dobraram em 2026, e a capital chegou a liderar o ranking de cidades mais poluídas do país. Escolas e universidades suspenderam aulas, e a Defesa Civil emitiu alertas de risco à saúde.
Mas o que essa fumaça faz, de fato, com o nosso corpo? E quem precisa de mais cuidado nesse período? É o que explicamos a seguir.
O que está acontecendo com as queimadas no Amazonas?
Até 8 de outubro, o Amazonas somava 6.901 focos de queimada em 2026, segundo dados do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam). É uma alta de 95% em relação ao mesmo período do ano passado. Os focos se concentram no Sul do estado e na Região Metropolitana de Manaus.
Com o vento, a fumaça avançou sobre a capital. No dia 9 de outubro, a Defesa Civil de Manaus registrou 196,4 µg/m³ de material particulado fino (MP2,5) no início da manhã. Pela escala oficial do Conama, qualquer valor acima de 125 µg/m³ já é classificado como qualidade do ar péssima.
Para ter uma ideia do que isso significa, veja como a escala do Índice de Qualidade do Ar (IQAr) classifica o material particulado fino:
- Boa: até 15 µg/m³;
- Moderada: de 15 a 50 µg/m³;
- Ruim: de 50 a 75 µg/m³;
- Muito ruim: de 75 a 125 µg/m³;
- Péssima: de 125 a 300 µg/m³.
Além disso, o monitoramento de pesquisadores da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) chegou a registrar picos acima de 340 µg/m³ durante a madrugada. Por isso, a rede municipal de ensino, a Ufam, a UEA e o Ifam suspenderam as atividades presenciais.
Como a fumaça afeta a saúde respiratória?
A fumaça das queimadas é composta por uma mistura de gases, como o monóxido de carbono, e partículas sólidas. Entre esses poluentes, o material particulado fino (MP2,5) merece atenção especial.
Isso acontece porque essas partículas são extremamente pequenas e conseguem ultrapassar as defesas naturais do nariz e da garganta. Consequentemente, alcançam as regiões mais profundas dos pulmões e podem provocar inflamações. Além disso, parte dessas partículas pode atingir a corrente sanguínea, ampliando os riscos à saúde.
Por isso, os efeitos vão além do incômodo passageiro. Entre os problemas associados à exposição à fumaça estão:
- irritação nos olhos, no nariz e na garganta;
- tosse, chiado no peito e falta de ar;
- infecções das vias respiratórias, como bronquite;
- crises de asma e piora da doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC);
- descompensação de doenças do coração, como a insuficiência cardíaca.
Além disso, o impacto não se limita a quem mora perto do fogo. Afinal, a fumaça viaja centenas de quilômetros com o vento, como mostra o caso de Manaus, atingida por focos do interior do estado.
Quem corre mais risco com a fumaça das queimadas no Amazonas?
Todo mundo sente os efeitos de um ar tão poluído. No entanto, alguns grupos são mais vulneráveis e precisam de atenção redobrada:
- crianças, que respiram mais rápido e têm o sistema respiratório em desenvolvimento;
- idosos, que costumam ter menor reserva pulmonar e mais doenças associadas;
- gestantes;
- pessoas com doenças respiratórias, como asma, bronquite crônica e DPOC;
- pessoas com doenças cardíacas, como insuficiência cardíaca e doença coronariana.
Para esses grupos, o Ministério da Saúde recomenda um passo extra: procurar o médico para atualizar o plano de tratamento e manter em casa os medicamentos prescritos para crises.
Como se proteger da fumaça?
Enquanto o ar estiver carregado, o mais importante é reduzir a exposição. Para isso, o Ministério da Saúde e a Defesa Civil orientam:
- beber mais água, para manter as vias respiratórias úmidas e mais protegidas;
- manter portas e janelas fechadas nos horários de maior concentração de fumaça;
- evitar exercícios ao ar livre, principalmente nos períodos mais críticos;
- usar máscaras PFF2, N95 ou P100 ao sair de casa, porque elas filtram as partículas finas (máscaras de pano e cirúrgicas só barram as partículas maiores);
- acompanhar os boletins de qualidade do ar e os alertas da Defesa Civil da sua cidade.
Quais sinais pedem atendimento médico?
Por outro lado, alguns sintomas indicam que a fumaça está afetando o organismo de forma mais séria. Procure atendimento se houver:
- falta de ar que piora ou não melhora com o repouso;
- chiado no peito ou sensação de aperto no tórax;
- dor no peito;
- tontura, dor de cabeça persistente ou confusão mental;
- crise de asma ou de DPOC que não responde à medicação habitual.
No caso de crianças pequenas e idosos, a atenção deve ser ainda maior, já que eles nem sempre conseguem descrever o que estão sentindo.
Como os serviços de saúde se preparam para a temporada de fumaça?
Em períodos de queimadas, a procura por atendimento respiratório costuma crescer nas unidades básicas, nos prontos-socorros e nos hospitais. Não por acaso, as UBSs de Manaus seguiram funcionando mesmo com a suspensão de outras atividades da prefeitura.
Nesse cenário, a avaliação rápida do paciente faz toda a diferença. A medida da saturação de oxigênio (SpO2), por exemplo, ajuda a equipe a identificar quem precisa de cuidado imediato e quem pode seguir em observação.
Já nos casos mais graves, a monitorização contínua dos sinais vitais permite acompanhar a resposta ao tratamento e agir rápido diante de qualquer piora. Para isso, porém, os equipamentos precisam estar bem ajustados: vale conferir como parametrizar o monitor de sinais vitais de acordo com o perfil de cada paciente.
Portanto, preparar a estrutura antes do pico da fumaça, com equipamentos revisados e equipe treinada, é parte essencial da resposta a esse tipo de evento.
Conclusão: respirar bem também é questão de prevenção
As queimadas no Amazonas mostram como um problema ambiental vira, rapidamente, um problema de saúde pública. Em resumo:
- os focos de queimada no estado quase dobraram em 2026, e a fumaça levou a qualidade do ar em Manaus a níveis péssimos;
- o material particulado fino chega ao fundo dos pulmões e pode agravar doenças respiratórias e cardíacas;
- crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças crônicas precisam de cuidado redobrado;
- hidratação, ambientes fechados, máscaras PFF2 e atenção aos sinais de alerta são as principais formas de proteção.
Para quem cuida, a temporada de fumaça também exige estrutura: equipes preparadas e equipamentos confiáveis para avaliar e acompanhar cada paciente.
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